segunda-feira, 18 de julho de 2011

COISAS DE MÂE: JUJU, MINHA MÃE E O FRIO

                Sempre tive o sonho de ter um aquário marinho, mas nunca tive condições de comprar um. Por isso, comprei um betta. Juju é o nome que dei a meu novo filhote. Pois é, todos os animais de estimação em minha família são filhos de alguém.
                Como toda mãe zelosa, decorei seu aquário, segui a risca todas as especificações do vendedor. Dei comida, o vigiei e acabei me entediando e fui dormir.
                Ter um mascote é assumir responsabilidades, mas elas não são tão difíceis quando se trata de peixes. Você não tem que sair pra passear, dar banho ou agradar. É só alimentá-lo duas vezes por dia e trocar a água a cada quinze dias. É o que geralmente acontece quando qualquer pessoa adota um peixinho, menos pra mim. E tudo por culpa da minha mãe.
                Minha progenitora é capaz de fazer as coisas mais impossíveis e inacreditáveis que se possa imaginar. Ela já foi capaz de matar meu primeiro peixinho sem tocar nele. Ela jogou água nele e devido ao cloro o pobrezinho morreu. Como se não fosse suficiente, ela deixou o peixe morto no aquário por três dias, até que eu voltasse de viagem e constatasse o óbito. Pra completar, ela fez um breve velório, com direito a um Pai-Nosso e levou o cadáver dentro de um saquinho com água, até o lago próximo de casa. Como se o bicho precisasse de água depois de morto.
                Voltando ao assunto. Eu deixei o pobre Juju em cima da mesa da cozinha e fui dormir, esquecendo dos perigos que o acercavam. Quando estava no meu melhor sono, minha mãe entrou no quarto, aos berros, dizendo que o peixinho havia sumido. Pensei que alguém tivesse tirado o aquário do lugar, mas ela deixou claro que ele não estava no aquário.
                - Como não?
                - Sei lá. Só sei que o cachorro está lambendo os beiços.
                "Meu Deus! O cachorro subiu na mesa pra comeu o inocente Juju". Saí correndo para verificar e realmente o betta não estava lá. Meu cachorro estava aos pés da mesa olhando para o aquário como se estivesse pensando "mais que petisquinho bom".
                - Sereno seu cachorro ordinário. Como você teve coragem?
                Ele me olhava com aquela cara "mas o que foi que eu fiz?" e dava aquelas piscadas de cão arrependido.
                Mais uma vez, minha mãe quis fazer um velório, mas dessa vez sem o corpo.
                - O que você vai fazer com o aquário?
                - Sei lá, acabei de montar ele.
                Eu não podia acreditar. O Juju não durou mais do que duas horas. Fiquei olhando para o aquário tão bem decorado, cheio de conchas que juntei ao longo de minhas idas à praia. Foi aí que reparei que em uma das conchas saia um filete azul turquesa, exatamente da cor do Juju. Olhei por baixo e vi: o betta estava enrolado embaixo da concha. Acredite se quiser, o peixe se comporta como um cachorro.
                Depois desse fato inusitado, minha mãe gostou ainda mais do bicho. Todos os dias, depois que eu saia para trabalhar, ela ia averiguar como estava o peixe. Em um dia desses, ela me perguntou porque ele ficava escondido embaixo das conchas. A única resposta que encontrei foi que talvez a água estivesse fria pra ele. Quando voltei pra casa, encontrei o aquário enfurnado em um cobertor. E acredite se quiser, o Juju estava nadando tranquilamente.